Para Refletirmos

O pensamento comunista me trás sentimentos de profundo amor. É como as gotas de chuva para as plantas depois de um longo período de estiagem: vem para purificar e dar lugar a nova estação.

Miriam Pacheco S. Seixas

quinta-feira, 1 de julho de 2010

ÉTICA E GLOBALIZAÇÃO – UMA VISÃO EDUCACIONAL


Miriam Pacheco da Silva Seixas
&
Mirlene Pacheco Alves

Que sociedade não anseia viver em plena harmonia, respeitando algumas virtudes fundamentais como: prudência, valor, temperança e justiça. Todos estes sentimentos visam gerar uma certa ordem, limitando-nos a nossa consciência e o respeito ao próximo.

Com a evolução da espécie humana, a formação da sociedade teve um papel fundamental, e com esta formação foi necessário o advento de sentimentos tais como: bondade, dignidade, a busca do bem estar dos seres que convivem num mesmo espaço. Todas as formas de cultura elaboraram mitos para remir os procedimentos morais. A ética moderna evidencia influências da psicanálise de Sigmund Freud e dos ensinamentos behavioristas. Freud atribuiu o problema do bem e do mal em cada indivíduo à luta entre o impulso do eu instintivo para agradar a todos os seus desejos e a necessidade do eu social de controlá-los ou reprimi-los. O behaviorismo, por meio da observação dos comportamentos animais, avigorou a idéia da probabilidade de mudar a natureza humana, promovendo as condições que beneficia os desejos de mudança. Tendo explanado desta forma, podemos ainda pensar no assunto da globalização como um outro aspecto de mudança da cultura e por conseqüência disso uma mudança na ética e na moral da humanidade.

Com o surgimento da globalização, percebe-se que as pessoas estão cada vez mais independentes e egocêntricas, pois prioriza-se o consumismo e a valorização profissional e pessoal em detrimento de qualidade e virtudes como sociabilidade, respeitabilidade e cordialidade. A globalização deriva da agilidade com que as informações são processadas. Hoje temos a internet, como um papel transformador da sociedade moderna, que integra o homem ao mundo, mas ao mesmo tempo o separa de princípios fundamentais humanitários. O ser humano tem acesso a qualquer parte do mundo, a quaisquer informações que anseia, estando conectado apenas por uma linha telefônica instalada em seu domicílio, sendo assim, na tela do computador surgem diversificadas notícias, fatos e acontecimentos, além de se ter acesso a assuntos inúteis, que proporcionam distração àqueles que caem nesta “rede”, e às vezes pela curiosidade se vêem enlaçados, presos a situações comprometedoras e muitas vezes duvidosas. Não queremos dizer que somos contra a modernidade, nem tão pouco estamos falando que a internet não proporciona boas informações, mas estamos sim apresentando a questão como ela tem sido veiculada, e mesmo como acadêmicas não podemos jamais dizer isso, pois muitas pesquisas podem ser feitas pela internet, e muito se pode saber sobre avanços científicos e ações realizadas em qualquer parte do mundo. Mas usando mais os fatos reais, e, ou melhor, dizendo, tratando-se de Brasil, quantas pessoas têm realmente acesso à internet, ou melhor, quantas pessoas têm acesso às informações básicas – neste texto pretendemos retornar a esse assunto – sem falar nos avanços dos aparelhos celulares e uma “parafernália eletrônica de última geração”.

Porém é necessário lembrar que temos de estar atentos para não cairmos em ciladas. “O impacto de mercado desregulado e internacionalizado em sociedades tão desiguais como a brasileira tem produzido um elevado custo social e político por atingir desigualmente as camadas sociais, penalizando mais aquelas já marginalizadas e excluídas, historicamente”. (Vera Correa, 2000).

Não obstante, a globalização padronizar o pensamento, ela ainda é “comercialista”, visa somente à competitividade, à valorização do mercado através do capital, além de ressaltar as peculiaridades regionais e não deixar dúvidas, nos consumidores, de que aqueles que não detêm tecnologia estão excluídos do grande sistema que ambiciona gerar um pensamento universal. Um dos primeiros sintomas que a globalização gera é a exclusão, que não é só sentida socialmente, como também psicologicamente, a pessoa opta pelo ostracismo, deixa de se interessar por viver em sociedade e acaba por cair em depressão. Entretanto, resta ratificar que ainda é cedo para avaliar todas as seqüelas que esta interação global terá sobre as novas gerações e nomeadamente nas dos países do terceiro mundo. Mas já se sabe que a vivência humana globalizada está criando uma nova forma de pensamento, resta saber qual será o resultado deste novo contato.

Após fazermos uma breve apresentação sobre a ética e a globalização, queremos agora analisá-las na visão da escola. Até os 12 anos de idade a criança é ensinada a dividir seus brinquedos, a ser boa, a respeitar os outros, respeitar as diferenças, conviver com as diferenças de cada ser, a cooperar sempre que isso estiver ao seu alcance, e isso geralmente tem sido ensinado dentro da escola – visto que a instituição família tem se eximido da responsabilidade conceder tais ensinamentos. A escola passa a ter o papel de instruir as crianças no caminho moral, e ainda encher-lhes de conhecimentos.

Após essa idade de 12 anos a escola muda de papel, deixando de ser humanitária e passando a ser comercialista. Passa então a ensinar de forma diferente para que o adolescente veja o mundo como um palco para a competição, onde será cobrado do aluno um destaque com relação aos demais em avaliações e pesquisas. A visão agora é ser o melhor possível, pois são dessas pessoas que o mercado de trabalho precisa. Começa-se a “produzir seres humanos em série” que devem esquecer sentimentos, pensamentos, e todo o cansaço do corpo para satisfazerem o “Grande Mestre”: O Mercado.

Deixando de lado esta “veia” marxista que muito nos atrai e voltando ao assunto, queremos explorar mais sobre como a escola pode tratar este contexto.

A partir deste ponto a criança, foco em questão, passa a ver o mundo da seguinte maneira: “até certo ponto, ou melhor, socialmente falando, sou amável e bem dócil, mas quando se fala em levar vantagem utilizo o ditado ‘olho por olho, dente por dente’, e a partir daí salve-se quem puder”. O menino que sai do ensino fundamental, acostumado a tratar a professora como “Tia”, passa a ver o mundo de forma bem diferente, ouve os adultos falarem: “o mundo é para os melhores”, ou “quem tem dinheiro tem tudo”, ou mesmo “preciso trabalhar e estudar o dobro para ser alguém na vida” ou ainda, “estamos num país pobre é melhor nos acostumarmos com essa situação, precisamos nos conformar com nossa pobreza”. Chocam-se, então, dois pensamentos tão apregoados pelas instituições educacionais: de um lado a ética que nos leva a averiguar as possibilidades, os limites, as restrições, o respeito da individualidade e da coletividade, o sentimento de cooperativismo, e até mesmo o apreço e respeito pela natureza, de outro lado o mundo global que só garante futuro para o sujeito que se encaixa com destaque no mercado da competitividade, e por conseqüência deixa de lado todas as virtudes humanas citadas acima.

Ao mesmo tempo a própria escola assume dois papéis tão diferentes em um espaço de dois meses (período de férias dos alunos, exatamente no período em que a criança passa do Ensino Fundamental para o Ensino Médio), na primeira cena a escola faz ensinamentos morais e numa segunda, leva a criança ao encontro de um mundo cuja globalização já se tornou irreversível. Não queremos colocar a escola como ré do processo de formação do indivíduo, mas queremos mostrar que ela ainda pode ser um instrumento de mudança, uma referência para todos que nela ingressam. Pode fornecer não só uma mudança intelectual, mas uma mudança da situação de exclusão em que muitos vivem, ainda mais se tratando de um país como o Brasil, onde a diferença de classes ainda é acentuada em dois pólos: ricos e pobres. A escola precisa resgatar seus sentimentos para a visão humanística, resgatar sentimentos morais e éticos, deixando bem claro as condições do país em que vivemos e que precisamos sim de uma mudança, mas que ela venha com dignidade, não nos excluindo mais, ou colocando isso em evidencia a todo o momento, mas nos fazendo uma nação. Sabemos que mudar a posição da escola com relação ao assunto aqui proposto é algo muito complexo, pois ela sofre uma influência estatal, influência que é mais de interesse político. O estado não está preocupado com a defasagem escolar ou com o caos que a escola tem enfrentado. O que realmente tem preocupado as últimas políticas que se fizeram vigentes no Brasil é o “Faz de Conta”, faz de conta que se ensina e que não se tem crianças em trabalho escravo, simplesmente por que o Brasil precisa de dinheiro do FMI (Fundo Monetário Internacional). Com isso tem-se iludido um país inteiro e ainda o próprio FMI com números elevados em relatórios bem ilustrados de uma Educação de boa qualidade, relatório esse de conclusão do processo escolar das crianças, ditas bem preparadas para o mundo, para encarar a globalização, quando na verdade a educação que tem sido oferecida não leva o jovem a lugar nenhum a não ser à marginalidade, evidenciando ainda mais a exclusão.

Sabemos que no campo empregatício essa globalização tem gerado ondas de desemprego que assolam o país, como afirmou Vera Correa em seu livro: “Globalização e Neoliberalismo: O que isso tem a ver com você professor?”;

“O que queremos aqui destacar é o fato de que os países ditos periféricos foram mais duramente atingidos pelas acentuadas mudanças no mercado de trabalho e, conseqüentemente, nas condições de vida da maioria da população. Dadas essas diferenças, mesmo que o desemprego, por exemplo, tenha também atingido os países centrais, isso ocorreu em menor escala e sob outras condições. Temos acompanhado através de seminários, encontros, e publicações em periódicos especializados e da mídia como essas transformações tem agravado principalmente os problemas sociais e políticos já existentes, tais como o argumento do desemprego, da miséria absoluta, da fome, do retorno de doenças consideradas erradicadas, do descaso com a educação pública, a pesquisa, etc.” (Vera Correa, 2000).

Essa questão do desemprego tem assolado a todos os países, assim chamados por Vera Correa de periféricos. Nem mesmo a classe dos professores está imune ao desemprego. É exatamente por isso que é necessário se tomar uma postura mais humanista e menos mercantilista, pois o que estamos vendo é a doação do saber sendo encarada como mercadoria. É necessário mudar esta situação para que seja possível gerar um país que respeite as desigualdades verdadeiramente e não somente de fachada. Os professores devem ensinar a seus alunos a importância das ações e regras da ética e da moral, para que possam ocorrer mudanças nas condições de vida dos alunos, alterando o cenário de exclusão em que vivem e fazendo com que vivam de cabeça erguida, conscientes de que devem cumprir seu papel dentro da sua sociedade.

É necessário que se modifique a maneira de pensar com respeito à educação, e o primeiro passo é alterar a concepção que a classe de professores tem de si mesma, concepção esta que valoriza menos os professores do Ensino Fundamental, conferindo mais valor ao professor do Ensino Médio. E isso fica cada vez mais explícito quando um aluno chega a uma série sem as informações que parecem ser necessárias, mas que deveriam ser ensinadas na série anterior. Limita-se a ministrar o conteúdo oficial da grade curricular, não indo além desta nem tampouco revisando matérias de séries anteriores. Posturas como estas, além de serem antiéticas, são ainda excludentes, pois o professor pensa só no seu papel de ensinar a matéria que esta direcionada para aquela série, não se deixando desviar para revisão ou mesmo para acrescentar conhecimentos.

Os professores podem ser eficientes instrumentos de mudança na sociedade. Foi assim com todos os que se tornaram mestres assim como Platão, Sócrates e outros. Presentemente é preciso retomar os caminhos de mudança, que colocam em prova, checa e ao mesmo tempo choca, analisa e transforma. Mesmo que as mudanças levem muito tempo para surtir efeito. É preciso esta nas mãos dos professores além do giz e livros estar à base para as maiores mudanças para o mundo.

Referências Bibliográficas:

CORRÊA, Vera. Globalização e Neoliberalismo: O que isso tem a ver com você, professor?. Rio de Janeiro: Quarter, 2000. Cap.1, p.30-47.


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