Para Refletirmos

O pensamento comunista me trás sentimentos de profundo amor. É como as gotas de chuva para as plantas depois de um longo período de estiagem: vem para purificar e dar lugar a nova estação.

Miriam Pacheco S. Seixas

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Paulo Freire Vive Entre Nós!

21.03.07 - AMÉRICA LATINA

Por: Claudemiro Godoy do Nascimento *


Adital - Quando se fala em referência educacional, imediatamente lembramos-nos de Paulo Freire. Em 2007, comemoramos 10 anos de sua morte; 10 anos de sua ausência sempre presença entre os educadores e educadoras que assumem realmente o compromisso com a Educação. Paulo Freire. Sem dúvida alguma, tornou-se um referencial no processo de educação comprovado pelos inúmeros seguidores espalhados pelo mundo e que, a exemplo dele, procuram lutar por uma educação que visa, acima de tudo, libertar-se dos conceitos arcaicos e opressores estabelecidos pelo sistema imposto pela classe dominante hegemônica.

A quantidade de seguidores e seguidoras de Paulo Freire vem crescendo nestes 10 anos que se passaram rapidamente. Cresce de forma avassaladora ao ponto do surgimento de um Instituto, denominado Instituto Paulo Freire (IPF), que hoje se encontra espalhado em mais de 18 países mundo afora. A idéia desse Instituto surgiu por intermédio de uma visita de Paulo Freire à Universidade da Califórnia e vem crescendo graças ao trabalho e empenho de muitas mãos educadoras como a de Carlos Alberto Torres, Francisco Gutiérrez, José Eustáquio Romão, entre outros e outras que se associaram a este Instituto a posteriori com o intuito de produzirem uma biografia de Paulo Freire.

Paulo Freire pode ser considerado como um modelo de educador em toda a América Latina, pois suas obras refletiram sobre a educação brasileira e do chamado Terceiro Mundo, em especial, Guiné-Bissau. Com isso, Paulo Freire influencia não somente educadores e educadoras, mas também profissionais de muitas áreas do saber.

Entre os inúmeros projetos de Paulo Freire se encontra o das Cátedras Livres que está fundamentada em um grupo de pesquisadores e especialistas que visam criar as condições acadêmicas para estudos de pós-graduações alicerçados nas obras de Paulo Freire e a constituição dessas condições está embasada em reflexão, diálogo e intercâmbio com profissionais interessados de outras áreas científicas.

Com base numa visão prospectiva surgiu uma série de livros que buscava entender a pluralidade e a interdisciplinaridade do pensamento freiriano. O intuito do Instituto Paulo Freire é manter vivo tudo o que ele construiu através de um estudo crítico, sistemático em forma de pesquisa documentada, formando e informando os jovens pesquisadores a respeito de sua forma de pensar.

Segundo o antropólogo e educador, Carlos Rodrigues Brandão, não se deve pensar em educação como algo específico somente baseado nas teorias de Paulo Freire e sem pôr em prova a capacidade de cada um, ele diz ainda que não deva haver uma apetição das idéias de Paulo Freire, mas a construção de novas, rumo ao futuro e se assim acontecer estar-se-á agindo como agiam e esperam os conservadores do passado.

Ler algumas obras de Paulo Freire nos faz relacionar as formas de atuação dos professores e professoras, com as novas tendências educacionais que surgem a cada dia nesta sociedade de consumo na qual vivemos. A maneira como Paulo Freire pensa pode ser considerado como o resultado de uma existência que se doa ao homem enquanto Pessoa Humana, enquanto ser história e sujeito dela. Muitos enfatizam que o que serviu para construir e embasar a teoria do conhecimento de Paulo Freire foi o lugar onde ele viveu, no nordeste brasileiro, e o fato dele ter sido exilado na década de 60. O laboratório, ou seja, o método Paulo Freire foi construído nesta certeza de tornar a pessoa humana sujeita de sua história neste contexto da sociedade brasileira que não se difere de toda a sociedade latino-americana na década de 60. Toda a atmosfera política na década de 60 foi a base para que Paulo Freire pudesse construir sua forma própria de pensar a educação que temos e a educação que queremos. Neste sentido, tudo o que ele viveu no exílio no Chile serviu para terminar em sua obra o pensamento político-pedagógico alicerçado na pessoa do oprimido.
Quando Paulo Freire construiu seu método pedagógico, procurou fundamentar-se nas ciências relacionadas à educação, como a psicologia e a sociologia. Ele ditou a teoria da codificação e da decodificação das palavras e essa teoria fez com que os educadores e educadoras e políticos se interessassem pelo fato de que seu método conseguia auxiliar a alfabetização de adultos exatamente porque era diferente do método usado para alfabetizar crianças. Ele foi criado especificamente para adultos, por isso obtinha-se um maior resultado. Esse método de alfabetização instiga aluno e professor a buscar o vocabulário do dia-a-dia do aluno e de sua realidade, propõe a tematização desse vocabulário e, a partir daí, aluno e professor encontram um código (palavra) e a decodificam (encontram seu significado). Além disso, propõe também a problematização que significa a troca da primeira visão por uma nova visão, mais crítica, para conseguir mudar o que estão vivendo.

Algo importante a dizer também é que o chamado construtivismo freiriano levou em conta as experiências dos alunos o que possibilitou ultrapassar as barreiras da pesquisa e da tematização, pois conseguiu nos mostrar que qualquer pessoa pode aprender sobre algumas coisas e pode se responsabilizar em construir o seu conhecimento próprio daquilo que aprendeu. Tanto jovem como adulto, só aprendem quando se interessam.

A teoria de Paulo Freire pode ser considerada, sem dúvida, como interdisciplinar, ou seja, abrange todas as áreas do conhecimento. Neste sentido, devemos conceber a figura emblemática de Paulo Freire como educador, como pesquisador e como cientista. Além disso, Paulo Freire não conseguiu se dissociar da política, não conseguiu ver a realidade do outro sem nela interferir como educador social, pois procurou entender a realidade através da ciência e do compromisso assumido na defesa dos que não tem voz e nem vez na sociedade. Por causa desse pensamento ele via a educação como um ato político. A linha de pensamento de Paulo Freire está voltada para a realidade e de todas as formas ele sente o dever de transformá-la.

Para Paulo Freire deve existir uma relação pedagógica e dialógica nas ações do educador que não deve pensar em apenas passar o conteúdo, mas aprender com aqueles que esperam receber conhecimento desse educador. A idéia central das obras de Paulo Freire retratam a noção da liberdade - libertação porque o objetivo da educação é poder libertar-se da dura realidade que oprime e comete injustiças, ou seja, a educação deve contribuir na transformação dessa realidade.

Neste sentido, a filosofia de Paulo Freire tem dois elementos importantes, a saber: conscientização e o diálogo. Paulo Freire via a alfabetização não somente como um simples repasse da técnica, mas como um ato de respeito ao saber do outro, o aluno. É por isso que suas obras sempre tiveram uma grande repercussão, exatamente porque a sua pedagogia faz do aluno um ser digno. Segundo Dalma de Abreu Dallau, Paulo Freire veio para reeducar, para dar liberdade as pessoas fazendo-as se tornarem dignas e por tentar conscientizar numa perspectiva do "agir juntos" e com isso transformar a realidade de dignidade de poucos para uma realidade de dignidade para todos.

Em sua experiência como Secretário Municipal de Educação em São Paulo, como administrador público, via o ato de governar de uma maneira democrática, formou uma equipe com autonomia para trabalhar. Tinha suas próprias opiniões, mas sabia acima de tudo trabalhar em conjunto, em comunhão como costuma afirmar. Ele usava a autoridade dentro dos parâmetros da democracia, pois sabia que a mudança na educação deveria acontecer, mas com paciência, porque a educação para a liberdade não acontece como num passe de mágica. Como se preocupava muito com a educação, sempre buscou formar os educadores e educadoras numa perspectiva permanente, fazendo com que os atores sociais criassem suas próprias práticas de ação pedagógica.

Esse programa de Paulo Freire visava formar os educadores e educadoras que tivessem um comportamento pedagógico que levasse em conta a autoridade tradicional do Brasil. Ele, na verdade, queria colocar em prova a sua paciência pedagógica com a política, visando sempre o exercício da democracia, pois para ele era muito mais fácil praticar a democracia do que aprender sobre ela. Assim, Paulo Freire buscou através dos movimentos populares o ensino noturno e o ensino supletivo. Criou o MOVA em São Paulo (Movimento de Alfabetização) e esse projeto foi adotado, posteriormente, por outros estados e muito elogiado pelos resultados alcançados porque buscava a cidadanização e formar as pessoas capazes de se libertarem em comunhão na sociedade.

Toda a obra de Paulo Freire se resume em uma palavra: interdisciplinaridade. Para ele, a interdisciplinaridade é uma exigência de todo o ato pedagógico e esse mesmo ato pedagógico por intermédio da interdisciplinaridade tem o objetivo de construir uma escola mais participativa. É esse o objetivo da interdisciplinaridade, provar a dialogicidade das experiências do cotidiano do aluno e do professor.

Somente nos anos 90 foram publicados por Paulo Freire no Brasil 6 livros e essas obras conseguem revelar o lado mais literário dele. Ele se preocupa muito com o tipo de educação que os homens e mulheres vão precisar neste novo século XXII devido vivermos em um mundo tão globalizado e condenado ao caos por causa da cultura de exploração e de devastação que toma conta da mentalidade dos homens de negócio.

As filosofias que marcaram as obras de Paulo Freire foram o existencialismo, a fenomenologia e o marxismo. Algumas criticas dizem que Paulo Freire não possui uma teoria relacionada ao conhecimento, porque não analisa as relações entre sujeito do conhecimento e do objeto, mas que ele teria uma teoria antropológica do conhecimento, outros dizem que ele é autoritário e que seu método fala de uma realidade que nem todos desejam transformá-la.

Que Paulo Freire é um modelo de educador e que sua teoria é um modelo de teoria educacional a ser seguido isso já sabemos, o que falta é colocar em prática todos os seus ensinamentos, porque tudo que ele escreveu se encontra fundamentado em experiências vividas e não há nada melhor para nós do que ensinar a partir das experiências vivenciadas, experimentadas, exatamente porque elas nos fazem refletir sobre o que se encontra fora dos rumos da hominização do ser humano.

E na educação, refletir acerca dos erros é fundamental para que esse processo flua de uma maneira mais tranqüila e com resultados. É isso que Paulo Freire almejou, uma educação que visasse ensinar e aprender, que houvesse uma troca dialógica entre professores e alunos. A idéia de Paulo Freire é que a pessoa ao iniciar-se no processo da aprendizagem conseguisse transformar a realidade na qual estivesse inserida. Contudo, essa realidade somente será transformada se o primeiro passo for dado pelos educadores. Se o educador instigar o aluno a tentar de todas as formas se libertar da opressão em que vive, assim, atingir-se-á os objetivos propostos por Paulo Freire.

Por isso, ainda acredito, por ver educadores e educadoras em processo, na luta por caminhar na contramão da história hegemônica da classe dominante é que acredito que os ideais de Paulo Freire não foram em vão. Paulo Freire vive entre nós, no educador e no educando, na educadora e na educanda que querem ver um novo dia acontecer e a realidade de exclusão na qual se encontram ser transformada.

E-mail: claugnas@terra.com.br


* Filósofo e Teólogo. Mestre em Educação pela Unicamp. Professor da Universidade Estadual de Goiás - UEG

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