Para Refletirmos

O pensamento comunista me trás sentimentos de profundo amor. É como as gotas de chuva para as plantas depois de um longo período de estiagem: vem para purificar e dar lugar a nova estação.

Miriam Pacheco S. Seixas

terça-feira, 7 de julho de 2009

Protógenes dialoga com PCdoB para dar 'novo viés' à sua luta


Mais uma vez o trabalho de investigação do delegado Protógenes Queiroz ganha as manchetes. A Procuradoria da República em São Paulo denunciou o banqueiro condenado Daniel Dantas e mais 13 pessoas, sob acusações como gestão fraudulenta e evasão de divisas. Mais um resultado da Operação Satiagraha. Nesta entrevista exclusiva ao Vermelho, Protógenes se considera ''um delegado com um aviso prévio''. Busca ''um outro viés'' para a sua luta, sem ocultar que este passa por 2010. Em um país que segundo ele ''se bipolarizou'', revela que tem ''falado com vários partidos'', mas há um ''que equilibra o país no campo da esquerda brasileira, que é o PCdoB''.


Protógenes na manifestação do 2 de Julho na Bahia

Por estas e por outras, Protógenes acabou se tornando uma referência da luta contra o banditismo de rico no país. Andar com ele na rua não é fácil. Seja onde for, do Aeroporto à Praça Sete de Belo Horizonte, o delegado da Polícia Federal é parado por pessoas que reconhecem e elogiam o seu trabalho.


Em comum, a solidariedade em relação a perseguição que vem sofrendo de instituições públicas e privadas que agem a serviço de Dantas. O personagem Protógenes traz bastante curiosidade, mas mais curioso é o sentimento que ele desperta nas pessoas: de cansaço com a corrupção que corrói a estrutura do Estado; e também de esperança em um futuro em que o compromisso com o Brasil esteja acima de tudo.


O delegado tem percorrido o país inteiro atendendo a convites para palestras e debates, a maioria organizadas por estudantes de direito. Em uma das passagens por Belo Horizonte, Protógenes fez uma visita de cortesia à sede do PCdoB estadual, onde deu uma descontraída entrevista exclusiva para o Vermelho. Nela, o delegado fala de sua carreira, da Satiagraha e do seu passado de militante estudantil, quando se aproximou dos comunistas. “Posso lhe assegurar hoje que a política tem um partido que equilibra o país no campo da esquerda brasileira, que é o PCdoB. Este partido tem uma política mais responsável”, comentou o delegado. Veja os trechos principais.

Vermelho: Vamos começar contando suas raízes?


Protógenes Queiroz: Bem, eu nasci em Salvador, Bahia, em 1959. Meu pai era militar da Marinha, instrutor de aviação naval. Logo quando nasci, meu pai teve de ir para o Rio de Janeiro e ajudar na intervenção na cidade, que na época tinha sofrido uma intervenção pelo almirante Protógenes Guimarães. Em decorrência dessa amizade fraterna que ele tinha, me batizou com o mesmo nome, homenageando o amigo.


No Rio, a primeira cidade em que habitamos foi a Niterói, em um bairro chamado Barreto. Depois fomos viver em uma cidade vizinha, chamada São Gonçalo, onde eu tive praticamente toda a minha adolescência. Estudei em escola pública meu ensino fundamental, na Escola Municipal Presidente Castelo Branco, então, um ensino público de qualidade.


Então no ano de 79 eu presto vestibular, e meu pai pensou que como eu havia prestado vestibular pra Engenharia e pra Direito, mas que eu estava fazendo Engenharia, mas eu optei por fazer Direito, apesar de ter passado em Engenharia. E no terceiro mês meu pai descobre que eu to fazendo Direito, ai ele cortou o pagamento da faculdade, eu era menor na época e me inscrevi no crédito educativo. Nisso eu contei para minha mãe, eu falei mãe meu pai cortou o pagamento e eu vou ter que parar de estudar, porque ele quer que eu faça Engenharia e eu não quero, quero fazer Direito.


Vermelho: Como se deu seu primeiro contato com a política?


Protógenes: Eu era um aluno que contestava muito no colégio e havia um apelo muito forte dos professores daquela época que eram contra o regime militar. Lembro-me que eu organizei junto com colegas nosso trabalho para a feira de ciências. Eu preparei uma sala que tinha pau-de-arara, cadeira elétrica, choque elétrico. Em vez de sala de pesquisa científica, fizemos uma sala de tortura para mostrar nossa indignação com o que estava acontecendo no país. O muro do colégio apareceu escrito “Terrorista é ditadura que mata e tortura”.


Então aquilo já foi uma confusão, principalmente porque a feira de ciências recepcionou muitas autoridades da época, mas também muitos agentes da força de repressão. E os militares queriam saber qual a origem daquelas frases no muro, isso foi em 70, no auge da ditadura, quando estava morrendo muita gente. E também fizemos um jornal que se chamava Alerta Geral, que continha muitos textos de contestação política na época.


Eu estava apenas com 14 anos e já paguei um preço, porque minha casa foi invadida por agentes da força de segurança, para tentar confiscar os jornais. O jornal teve apenas uma edição, e foi rodado no mimeógrafo. E fizeram um conselho para expulsar os alunos que estavam envolvidos naquele jornal e na configuração da sala de tortura. E eu acabei assumindo toda a responsabilidade para inocentar os meus colegas. E cresço nesse ambiente, equilibrando toda essa veia contestatória.


Eu participei do primeiro congresso da UNE em 1980 salve engano, como delegado da UNE. E naquela época falavam o seguinte quando você voltar, você está preso, porque na faculdade vão te pegar, vão te pegar em casa. Tanto é que eu volto do Congresso da UNE, onde teve muita confusão. Elegemos lá o Aldo Rebelo, que hoje é deputado Federal, grande camarada.


Entro na juventude co munista na adolescência ainda, naqueles grandes arautos do Partido Comunista Brasileiro. Recebendo muitos ensinamentos sobre a doutrina, sobre o conhecimento. Eu era o mais jovem desse grupo, me chamavam de garoto. Esse menino ainda vai ser um grande homem desse país. Eu não pegava muito esse “grande homem” que eles diziam, mas eu olhava esses ensinamentos como fundamentos doutrinários e de construção de uma nação. Uma nação que ela produz uma riqueza para seu povo.


Vermelho: Como surgiu a figura do delegado da Polícia Federal?


Protógenes: Passei quase 12 anos exercendo minha advocacia privada, onde consegui o que eu almejava enquanto profissional. Certo dia, fui pagar uma conta na agência do Banco do Brasil e tinha um cartaz do concurso para a Polícia Federal. Defini por este rumo porque teria atribuição para prender todo mundo, para prender gente grande e poderosa. É isso que está precisando nesse país [disse], um profissional desse jeito e eu vou para essa carreira.


Fiquei mais de 10 anos na Policia Federal, onde eu dei minha contribuição para o Brasil. Só não continuei porque não me permitiram continuar. Mas até onde me permitiram a contribuição foi muito boa.


Nesses mais de 10 anos como delegado eu consegui a prisão de pessoas muito importantes que jamais ninguém pensou que iriam ser presas. Os do Banco Pascoal, mais 40 indivíduos que continuam presos até hoje.O maior contrabandista do Brasil, Lao Kin Chong, preso em São Paulo. Em São Paulo eu prendi não só o maior contrabandista como o ex-presidente da Câmara, Armando Melão, o ex-prefeito Celso Pitta e o ex-prefeito e governador Paulo Maluf. Toda a administração pública do Estado foi presa por corrupção, por desvio de recurso público, lavagem de dinheiro, evasão de divisas. É muito grave! Até árbitro de futebol, máfia do apito, corrupção no futebol. Foram tantas operações, combati lavagem de dinheiro e evasão de divisas do Banco Banestado, em Foz do Iguaçu, que era a maior lavanderia do Brasil.


Eu cumpri meu papel enquanto servidor público federal, enquanto delegado da Polícia Federal. Só não fiz mais porque não me permitiram. Aí o Brasil ficou conhecendo o delegado Protógenes. E vocês, jornalistas, começaram a linkar um fato com outro para descobrir quem fez aquela operação, aquela prisão, quem bloqueou os recursos quem identificou as contas no exterior e deu o caminho para o bloqueio.


Isso me deu uma satisfação, uma felicidade e um sentimento de dever cumprido, porque a população soube recepcionar isso com muito carinho, com muito respeito. A todo tempo eu saio nas ruas sou cumprimentado de uma forma educada e de uma forma agradecida.


Mas agora [tenho] outro viés, porque como delegado de Polícia Federal hoje eu estou afastado. Eu sou um delegado com um aviso prévio. O afastamento foi por um motivo absurdo, injusto. Mas a estrutura de poder que hoje está em vigência no Brasil é que permite isso, pegar um profissional, do qual o Brasil em muito se beneficiou, e tentar neutralizar esse profissional. Mas isso eu acredito que não seja por um longo período de tempo. Porque há uma exigência popular maior para que eu continue a trabalhar no combate à corrupção, ou dentro ou fora da Policia Federal.

Vermelho: Falando nisso, como analisa o fato de um juiz aceitar que a defesa de Daniel Dantas seja assistente de acusação contra o senhor?


Protógenes: Há uma total inversão de valores, desde quando nós deflagramos a Operação Satiagraha. Isso não é surpresa, chegar a esse absurdo, eu nunca vi isso, do Dantas querer ser assistente da acusação do meu processo.


No caso ali, ele é que é o bandido, quer dizer o Daniel Dantas foi condenado a 10 anos de prisão, ao pagamento de multa de mais de 12 milhões de reais, ao bloqueio de dinheiro que eu identifiquei, contas [no valor] de quase 3 bilhões de dólares, que saíram de cofres brasileiros e estão em paraísos fiscais.


E agora vem querer ser assistente de acusação? Nós é que devemos acusá-lo de mais crimes que ele praticou, e que ainda faltam ser apurados. Que ainda faltam ser investigados, porque a investigação da Polícia Federal já identificou. Nós é que temos esse direito, não eles.


Então há uma total inversão de valores, e é um instituto que não espanta mais os brasileiros. São decisões absurdas, infundadas, inadequadas que às vezes agridem até a própria cidadania e aos instrumentos legais constituídos no país.


Como a gente vai concordar que um indivíduo tenha 1.402 licenças de exploração do subsolo brasileiro, sem saber como ele conseguiu essas licenças? Tem ali ouro, bauxita, manganês, diamante. Que história é essa? Qal é a situação do banqueiro condenado Daniel Dantas? É o grande gerente dessas jazidas no Brasil.


Mas a população está indignada, está insatisfeita, porque chegamos a um nível de maturidade onde não somos mais manipulados, por mídia nenhuma. Hoje a informação é linear. Após o advento da internet, blogs e meios diversos, você tem uma linearização, não mais uma verticalização da informação.

Vermelho: Esta sua situação o fez compreender um pouco melhor o quadro político do país. Qual a sua análise depois destes meses rodando?


Protógenes: Hoje o Brasil se bipolarizou. Existe o bloco capitaneado pelo PSDB, e suas forças correlatas, com interesses mais conservadores, política mais neoliberal, política essa que causou um prejuízo imenso à população brasileira, um prejuízo histórico à nossa nação.


E temos aqui outros partidos que se aglomeraram em torno do PT, fazendo uma política de correlação de forças para resistir ao que essa política conservadora iniciou. Para haver uma distribuição equânime das riquezas do país, controle da sociedade, equilíbrio na divisão de renda. Ou apenas para minimizar não só as desigualdades sociais, mas também a distância entre a população mais pobre e a mais abastada.
Dentro desse quadro posso lhe assegurar que desses partidos que se aglomeraram em torno da esquerda, com o PT, partidos que se encontram estruturalmente, organicamente, que saíram fortalecidos nesse processo falido, é o PCdoB. Posso falar porque tenho falado com vários partidos, em razão do caráter e experiência que carrego.


Então tem surgido um diálogo nesse sentido. Eu fiquei muito feliz por ser recepcionado como aqui na sede do Partido Comunista do Brasil. E de perceber que todo aquele ideário do passado, enquanto eu ainda era adolescente, aconteceu ou está acontecendo. Nós conseguimos vencer toda essa barreira que tinha no passado. Todo aquele estigma. Posso lhe assegurar hoje que a política tem um partido que equilibra o país no campo da esquerda brasileira, que é o PCdoB. Tem uma política mais responsável, dentro desse quadro que nós temos hoje no Brasil.


Eu classifico o momento político da seguinte forma: vamos aproveitar a estrutura orgânica de um país que venceu, de um partido que venceu todas as barreiras negativas, venceu e superou todas as perdas do quadro político partidário. Muitos sumiram muitos morreram, mas nunca perderam não só a esperança, mas o comprometimento com a causa que lhe foi posta ou colocada quando o partido foi criado. Então esse partido conseguiu ao longo desses 87 anos manter nessa estrutura político-partidária, o que é muito difícil. E ainda carregando todo um histórico pesado de resistência e de luta. Eu classifico o Partido Comunista do Brasil como um grande vencedor nessa estrutura político-partidária brasileira.


Esta minha visita aqui na sede do PCdoB é um reencontro com a minha história de estudante. Quero deixar aqui meu carinho, meu apreço pelo Partido Comunista do Brasil, em especial aos dirigentes desse partido que honraram com os compromissos estabelecidos a mais de 87 anos. Isso nos dá um orgulho muito grande e também nos fortalece para uma caminhada, e até uma possibilidade de trabalho para o futuro. Quero também deixar aos internautas do portal Vermelho, que muito tem contribuindo para manter viva essa discussão e esse debate em prol da causa pública, em prol do resgate a ética, a moral, do resgate as símbolos nacionais e, sobretudo os resgates a respeito da Constituição da República.

De Belo Horizonte, Kerison Lopes

Texto publicado originalmente: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=59302


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