Para Refletirmos

O pensamento comunista me trás sentimentos de profundo amor. É como as gotas de chuva para as plantas depois de um longo período de estiagem: vem para purificar e dar lugar a nova estação.

Miriam Pacheco S. Seixas

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Paulo Freire o Educador da Esperança



Por Cléber Sérgio de Seixas


É fim de tarde e trabalhadores rurais retornam da lavoura. José da Silva, um pai de família, chega em casa onde já o aguarda a “janta” que sua esposa cuidadosa e apressadamente preparou, já que esta noite ele quebrará a rotina que repete a anos após chegar do trabalho. Fará algo diferente de lavar-se, jantar, assistir televisão e dormir. Após a refeição este lavrador de 48 anos irá pela primeira vez à escola, onde espera ser apresentado a um mundo de novas descobertas, sonhos e possibilidades. Apesar de seu corpo tentar desanimá-lo, como se estivesse lhe dizendo que é inútil a esta idade aprender a ler e escrever, o homem vence o cansaço e prossegue rumo à Escola Municipal José Clementino Coelho, situada na zona rural de Limoeiro, uma pequena cidade situada no nordeste de Pernambuco, na transição entre a zona da Mata e o Polígono das Secas. Nesta escola são ministradas aulas de alfabetização para jovens e adultos no período noturno. Ao chegar o lavrador adentra a sala, senta-se, contudo estranha a configuração circular dos assentos em lugar das tradicionais fileiras. Recebidos os alunos por uma sorridente professora, inicia-se a aula.

Esta escola é uma dentre as várias que fazem parte do Projeto Sesi por um Brasil Alfabetizado, projeto este que utiliza um método de alfabetização que leva em conta na elaboração da cartilha de alfabetização, palavras oriundas do dia-a-dia e da realidade da comunidade à qual são ministradas as aulas. São os chamados Temas Geradores, obtidos através de uma pesquisa prévia do vocabulário utilizado pelo grupo social em questão. O método é baseado nas idéias de um educador pernambucano chamado Paulo Reglus Neves Freire e suas premissas estabelecem, entre outras coisas, que educadores e educandos estejam no mesmo patamar no que tange ao processo cognitivo, ou seja, o professor deixa de ser o dono da verdade para se engajar, auxiliado pelos alunos, no desvelamento dos temas estudados. O método não visa tão somente instruir o educando a dar os primeiros passos no mundo das letras, mas também formar cidadãos cônscios de sua capacidade de mudar a sociedade em que vivem tendo como uma das ferramentas a educação. Portanto é também objetivo desse método formar opinião e cidadania. Trata-se de levar os alfabetizandos a ter condições de ler a realidade para em seguida poder reescrevê-la, ou seja, transformá-la.
Apesar de parecer algo novo, esta forma de alfabetizar utilizando materiais e textos com temas extraídos da vida cotidiana dos alunos já foi utilizada com sucesso em outras ocasiões, dentre as quais podemos citar como expoentes o Movimento de Cultura Popular (MCP), criado pelo então prefeito de Recife, Miguel Arraes, e a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963, na qual foram alfabetizados mais de 300 trabalhadores rurais em apenas 45 dias. Esta última foi uma experiência marcante e inovadora no cenário das práticas alfabetizadoras nesse país. Também se utilizou do citado método o famoso Plano Nacional de Alfabetização, capitaneado pelo MEC, cuja coordenação foi delegada a Paulo Freire pelo governo de João Goulart e pretendia ter alcance nacional, como mostram as palavras do próprio Freire concedidas a Sérgio Guimarães: "Não quero dizer que na época já estivéssemos com o esquema montado para o país todo, mas quase: estávamos cuidando da capacitação de quadros que, por sua vez, se multiplicavam, etc. Com esse Plano, pretendíamos alcançar o país todo". Eram tempos de inquietação e agitação social nos quais se assistia à hercúlea empreitada de educadores cubanos que erradicariam em poucos anos o analfabetismo naquela ilha.

As experiências de Angicos e do Programa Nacional de Alfabetização do MEC devem ter acirrado os temores dos setores conservadores. O Golpe Militar de 1964 matou, ainda no ventre, as expectativas de Paulo Freire. Encarcerado, ficaria durante 70 dias alternando entre as prisões de Recife e Olinda - momento trágico que ele traduziu em oportunidades de aprendizado e reflexão. No cárcere, aprenderia um pouco mais sobre solidariedade e também veria de perto o desrespeito à pessoa humana. Contudo, não se rendeu ao desespero nem e à autocomiseração.

Mas por que silenciar e enclausurar este simples educador pernambucano? Que ameaças ao regime político instaurado podiam estar contidas no pensamento deste homem? É que muitas vezes as idéias sobrepujam em envergadura e força o próprio homem que as traz à existência, fazendo-se extensões poderosas de suas mãos e pés. As idéias de Freire eram uma ameaça ao status quo de segmentos reacionários da sociedade porque posicionavam a educação no campo da luta de classes, elegendo-a instrumento de libertação da classe oprimida. O método freireano não estabelece inimizade entre educação e política, pelo contrário, torna-as indissociáveis. Ao mesmo tempo em que educa, politiza.

Liberto da prisão, Paulo Freire seria convencido por familiares e amigos a exilar-se devido aos perigos aos quais estaria exposto caso permanecesse no Brasil. Iniciava-se assim um novo período em sua vida. De 1964 a 1980 viveria em vários países desenvolvendo trabalhos de educação e alfabetização, ministrando cursos, participando de conferências, debates, palestras e escrevendo livros; enfim, foi um período de intensa atividade intelectual no qual pôde solidificar seu pensamento. Foram tempos de Bolívia, onde a altitude de La Paz abreviou sua estadia. No Chile reencontraria sua esposa, seus filhos e alguns intelectuais, igualmente exilados por motivos políticos. No entanto, sua estadia em Santiago também seria abreviada pelos temores que tinha de terremotos. Os tempos de Chile trouxeram à luz dois importantes livros: Educação como Prática da Liberdade e Pedagogia do Oprimido, sendo este último o livro que encerra o cerne de seu pensamento.
Do Chile Paulo Freire foi para os Estados Unidos. Dizem que devido ao frio deste país, ele deixou a barba crescer, marca registrada que o acompanharia até sua morte.
Saído dos Estados Unidos, Paulo Freire foi para a Suíça em resposta a um convite do Conselho Mundial das Igrejas para trabalhar no departamento de educação desta instituição. Para Paulo foram tempos em que ele respirou liberdade e desfrutou de certo conforto.
Às margens do Lago Léman, acúmulo das águas do Ródano, rio que divide em duas a cidade de Genebra, Paulo deve ter recordado da capital pernambucana, das águas do Capibaribe que retalham Recife e dos tempos idos de sua infância em Jaboatão dos Guararapes. Infância rica em experiências, quando era apenas um dos filhos do casal Joaquim Temístocles e Edeltrudes Neves, a dona Tudinha. Talvez tenha se lembrado do fundo do quintal de sua casa, ambiente de sua primeira experiência pedagógica, onde o chão lhe fora quadro e gravetos lhe foram giz, como ele próprio escreveu em A Importância do Ato de Ler: "Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo, não do mundo maior de meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz".
É possível que também tenha sido assediado pela lembrança do dia em que decidiu abandonar a carreira de advogado, por ocasião da cobrança de uma dívida; decisão difícil que, no entanto, revelou a coerência, o idealismo e, sobretudo, a amabilidade deste homem que não nasceu para estar do lado dos que oprimem e sim junto aos que sofrem com a opressão e a injustiça. Também deve ter se lembrado dos dias do SESI, onde teve suas primeiras e não menos importantes experiências como educador: “A Pedagogia do oprimido não poderia ter sido gestada em mim só por causa de minha passagem pelo SESI, mas minha passagem pelo SESI foi fundamental”, disse em Pedagogia da Esperança. De sua base no Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra, Paulo Freire lançou ofensivas sobre os Estados Unidos, Ásia, Oceania e, sobretudo, a África portuguesa, em países como Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, tornando-se assim um educador cosmopolita.

Deve ter sido com muita emoção que Paulo Freire falou de seu apartamento em Genebra aos participantes do 1º Seminário de Educação Brasileira, via gravação telefônica, conforme revelam suas próprias palavras: "É uma alegria enorme me servir da possibilidade que a tecnologia me coloca à disposição, hoje, de gravar, de tão longe de vocês, essa palavra que não pode ser outra senão uma palavra afetiva, uma palavra de amor, uma palavra de carinho, uma palavra de confiança, de esperança e de saudades também, saudade imensa, grandona, saudades do Brasil...”.

A anistia possibilitou a Paulo e a tantos outros intelectuais, o retorno à pátria mãe. Por ocasião do retorno teria dito que queria, após tantos anos de exílio, reaprender o Brasil. De volta, Paulo Freire deu continuidade a sua vida como intelectual, educador e filósofo. A política era algo inédito na sua vida, contudo em 1980 ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. De 1989 a 1991 foi Secretário de Educação da cidade de São Paulo, na gestão de Luíza Erundina.

Em 22 de abril de 1997, deixou-nos órfãos o educador dos oprimidos, o educador amoroso que não tinha vergonha de sê-lo, conforme uma de suas célebres frases explicita: “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Eu amo as pessoas e amo o mundo...”. Morreu aos 75 anos de idade, de infarte.
As palavras de Mário Sérgio Cortella, então professor do Departamento de Teologia da PUC/SP, em entrevista à TV PUC, por ocasião da morte do educador, sintetizam que tipo de homem era Paulo Freire: “... era um homem que repartia seu coração de todos os lados. Ele morreu da única coisa da qual poderia morrer: do coração”. Paulo Freire é o exemplo marcante de alguém que viveu sempre em consonância com aquilo em que acreditava. A coerência foi uma de suas maiores marcas e seu pensamento figura em importância ao lado do de outros educadores famosos como Piaget, Vygotsky, Gramsci, Maria Montessori, entre outros.

Se no exterior Paulo Freire é o intelectual brasileiro mais agraciado com títulos de doutor Honoris Causa, no Brasil sua obra é pouco divulgada e explorada nos meios educacionais. Isto talvez se deva ao fato de que o pensamento freireano seja um convite ao abandono da inércia e letargia. Pode ser também que a castração daquilo que há de mais contundente em seu pensamento seja uma estratégia de grupos com interesses escusos tal como afirma Lênin em sua obra O Estado e a Revolução: “Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para ‘consolo’ das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o”.

Contudo, o enquadramento das idéias freireanas será necessário sempre que houver possibilidades de sonhar e injustiças e desigualdades a serem abolidas. Muitos têm falado sobre o “fim da história”, se referindo na verdade ao triunfo do liberalismo: fatalismo que nada mais é do que a imposição do pensamento e interesses das classes que se encontram abastadas e no topo da pirâmide social. Mas não se pode falar em “fim da história” enquanto existirem homens, tempo e mundo, ou seja, enquanto existirem possibilidades a serem conhecidas e exploradas pelos oprimidos e esfarrapados do mundo. O discurso da ideologia neoliberal apregoa, por exemplo, que o desemprego é uma fatalidade deste século. Porém não há fatalidade da qual não se possa fugir ou que não se possa enfrentar.
Se há um tempo em que se deva parafrasear Paulo Freire, este tempo é agora, pois sua palavra é aquela que leva os oprimidos a serem os atores do mundo, não mera platéia. É também uma palavra que visa convencer que o sonho não acabou, que a utopia é possível, que a história não morreu e que a esperança ainda deve fazer parte da natureza humana: “Não é, porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero”, disse Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido. E mais: “... não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã” (Pedagogia da Esperança).

Terminada a aula, José da Silva toma o caminho de volta para casa, caminho que ele decidiu percorrer diariamente. Apesar de ser às vezes um caminho empoeirado e escuro, é o caminho da mudança, que se faz também caminho das letras, o qual deve ser palmilhado com paciência, perseverança e, sobretudo, esperança. Em sua cabeça agora pululam sonhos e expectativas. Paulo Freire vive! Seu legado permanecerá vivo e incólume enquanto houver esperanças e possibilidades, enquanto houver caminhos a trilhar.

Confira texto na integra: http://www.observadoressociais.blogspot.com/

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